Relatório pós-mercado | exclusividade corptrader

A Petrobrás desligou o som no meio da festa. Em um comportamento surpreendente, as petroleiras se abstiveram do leilão da cessão onerosa e o Brasil deu vexame. Foi a manchete da Bloomberg, da Reuters, da Forbes. Nada saiu como o governo queria, sim, era o governo o maior beneficiado deste leilão. Sem petroleiras de fora no certame, ele não receberia bônus em Dolares, e a oferta não veio para fazer frente ao carry trade que se expressou de forma ainda mais contundente no último FOMC/COPOM. Dólar disparou. A Petrobrás foi agressiva, ela que já gozava de uma eterna prerrogativa viciante, exigiu sua parte e todo o resto, mesmo sem liquidez suficiente em caixa para pagar. O mercado entendeu que ela irá se endividar, ela que já tem uma dívida alta, em Dólares e está no cerne de um processo de desinvestimento. A Petrobrás derreteu. A bolsa, que tinha tudo pra decolar, e começou se preparando para isso, veio abaixo. Por isso dizíamos pela manhã, o cenário se projeta como promissor, mas devemos aguardar o leilão. Surpresas poderiam acontecer. Um eventual não interesse das petroleiras de fora poderia sim afetar as perspectiva, uma eventual liminar judicial suspendendo o leilão, movimento típico do nosso judicíário, reproduziria o mesmo efeito. Mas há males que vêm para o bem. Abaixo saberemos os motivos. Hoje a bolsa aproveitou para corrigir e fechou em queda de 0,33%, aos 108360 pontos.

Bovespa – Diário

O volume, tanto ontem quanto hoje, apesar de terem sido dominados pelos vendedores, foi alto. Quanto mais alto, menos sensível a bolsa fica a variações e fortes volatilidades. Como a que aconteceu hoje, gize-se. Mas é uma exceção que confirma a regra. Aqui devemos chamar a atenção para duas coisas: A primeira delas, é a formação do candle doji ontem. Dizíamos hoje em PODCAST que esse candle sugeriria uma eventual correção na alta. Não que poderia acontecer hoje, mas a situação nos trouxe à imposição gráfica. Não é que as figuras gráficas ou candles, em si, fazem preço ou determinam o movimento, mas elas sugerem exaustão e acúmulo, e ao chegar na ponta formadora da figura, os agentes ficam mais sensíveis. Hoje, as surpresas com a Petrobrás deixaram os investidores sensíveis, e eles sabiam que a bolsa precisava descansar, que tinha gordura acumulada, e tinha um doji mostrando exaustão, então não se intimidaram em vender. Mas trocaram um doji de ontem por um doji de hoje. A segunda coisa é um mais do mesmo: a queda de hoje não muda nenhuma perspectiva macro de continuidade da alta, assim como não mudou em Agosto, em Setembro. Inclusive dizíamos na Segunda-feira que o gráfico semanal segue intacto em tendência mas não seria anormal uma eventual queda, já que está acumulando 6 altas seguidas.

E o Dólar subiu forte.

Dólar/Real – Diário

O Dólar está sob 2 efeitos: um deles é o Carry trade, que vem se arrastando desde Julho e fica ainda mais expressivo a cada super Quarta-feira FOMC/COPOM, quando o spread de juros entre Brasil e Estados Unidos vai ficando cada vez menor. Isso tira o afluxo de Dólares para cá, que prefere outros países de mesma simetria mas com uma remuneração maior sobre o capital (México, Rússia, Africa do sul). Isso foi responsável pela alta que tivemos no Dólar.

Por outro lado, o avanço das reformas e a estabilidade institucional atrai o interesse dos investidores, que aplicam em mercado primário, sobretudo em infra-estrutura. Isso ficou mais expressivo após a aprovação definitiva da reforma da previdência, quando o Dólar começou a cair. Dizíamos, inclusive, aqui, que o Dólar antes perseguia juros, agora ele precisa aprender a perseguir crescimento, mas por hora, estamos em um hiato que deixa o ambiente assimétrico: os juros estão em 5% e o crescimento está em 1%. O Dólar sobe.

Dessa vez, imaginava-se uma queda conjuntural (não estrutural) dado que o leilão atrairia petroleiras estrangeiras, que pagariam em Dólar. Não aconteceu. Petrobrás paga em Reais, com o dinheiro que pega emprestado em Reais. O Carry trade voltou a cantar mais alto, e o movimento hoje foi de alta do câmbio.

Se os Dólares subiram forte, quando a bolsa esteve em movimento de queda, é de se esperar que a bolsa dolarizada caia mais expressivamente.

E foi uma queda pra lá de expressiva, com 2,13% de desvalorização

Bovespa em Dólar – Diário

A boa notícia é que ela exauriu o movimento de queda e devolveu uma parte, deixando uma sombra relevante e fechando o dia precisamente numa antiga região de resistência, que agora é suporte. A bolsa quer segurar.

E devemos lembrar: o movimento de hoje não foi estrutural, foi um ajuste de surpresa dos investidores. O leilão é importantíssimo, mas como dissemos, é importante para o governo, e ele pode aproveitar a oportunidade para dar a volta por cima. A bolsa persegue outros drivers, que falarão mais alto na sequência.

Os juros futuros do Brasil, que estão em movimento de avalanche, até subiram com os acontecimentos e deram uma guinada para cima, pagando 4,44% no vencimento de um ano. Temos SELIC A 5% hoje, com viés para 4,5% em Dezembro.

Brasil a 1 ano

É por isso que dizíamos que quem mais tinha a ganhar, e quem mais perdeu, foi o governo. O Estado almejava uma arrecadação forte com os leilões, que seriam canalizados para pagamento da dívida e para desafogar municípios. Acontece que arrecadou apenas 66% do projetado, vai ter que se desdobrar para fazer as contas novamente, e o compromisso com a dívida fica em cheque. Sem compromisso, eleva-se o risco, e os juros sobem por conta da desconfiança. A bolsa cai, por conta da mesma desconfiança.

Mas, falamos. Há males que vêm para o bem. O Governo agora vai ter que dobrar a aposta nas reformas que já estão no congresso para compensar a redução da arrecadação, e já começa a fazer efeito: essa noite, o senado aprovou a PEC paralela em primeiro turno, em tempo recorde, permitindo que os estados e municípios reformem suas previdências. Esses mesmos estados e municípios que seriam agraciados com os recursos do leilão e agora ficam desesperados.

O governo também vai ter que acelerar a agenda de privatizações, para fazer caixa e pagar a dívida. E os trabalhos já estão mais dinâmicos.

No médio prazo, a estrutura vai se sobrepor à conjuntura. E a boa notícia é que, hoje, o PMI do Brasil segue entre os maiores do mundo.

E um dado que passou ofuscado pelo leilão: A Anfavea teve produção 9,6% maior em Outubro, apesar das dificuldades com o nosso maior comprador de automóveis, a Argentina.

Vamo que vamo!

Até amanhã!

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